A casa e as manhãs
Terezinha Manczak
I
paredes de branco caiadas
retratos e panos bordados
deixavam o frio entrar
e o tempo sair a esmo
II
chão de tábuas lavadas
pés de crianças descalças
histórias do boi-tatá
e queijos com goiabada
III
teto de barro vermelho
sob céu de flores brancas
sobre cabeças e lendas
louças, baús e memórias.
IV
baldes de melodia
quebravam o espelho d'água
no fogo ardia a chaleira
chiando à hora do mate
V
pão com manteiga e café
pinhão assado na chapa
"o sol também se levanta"
e em brasas dia começa.
VI
janelas e portas abertas,
cortinas velam destino,
deixam entrar o dia
e tudo que vem com ele
VII
água limpa de beber
mãos de mãe, tanque e sabão
varaisde roupas ao vento
espantam os passarinhos
VIII
Trigo, sal, óleo e fermento
açúcar e água morna
um ovo dentro da massa
doura o pão de cada dia
IX
como se limpa o feijão,
não se escolhe o que viver
um dia todos almoçam
no outro a mesa esvazia
X
ruíram ao abandono
casa, pomar e jardim
hoje ninguém mora nela
é ela que mora em mim
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