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domingo, 16 de maio de 2010

Conto - Os Homens Também Choram!

Eram apenas sete horas da manhã, naquele dia do início de Março, mas o calor já se adivinhava insuportável. O carro estava parado na fila do meio na auto-estrada , como em todas as manhãs dos últimos cinco anos e Manuel tentava conter a ansiedade como sempre em todos os outros dias em que se dirigia para o trabalho.
Ligou o rádio num gesto entre impaciente e resignado. Já sabia o que ia ouvir:
- Senhores ouvintes, a temperatura prevista para hoje em Lisboa, situa-se entre os 35º graus de máxima e 25º de mínima. Alerta laranja activado em dez distritos do continente. Alerta vermelho na zona da grande Lisboa e grande Porto. Não se esqueçam de levar consigo as garrafas de água para manter a hidratação! Não expor a pele directamente ao sol! Crianças e velhos devem manter-se em casa! – E prosseguia o locutor:
- Trânsito congestionado nas principais vias de acesso á capita! Também no grande Porto e na Via de Circunvalação trânsito com demora acentuada! – mas Manuel já nem ouvia o locutor, era sempre assim todas as manhãs. Tocou no comando instalado no volante, para procurar uma outra estação de rádio, que lhe desse música relaxante e calma!
Mas só encontrava os sucessos barulhentos do momento....Irritado desligou o rádio. Olhou pela janela e reparou na ocupante do carro ao lado. Ela sorriu-lhe e ele retribuiu o sorriso fazendo um gesto de resignação que pretendia abarcar as filas e o trânsito e o mundo em geral.
Ela retribui com um encolher de ombros e ele não pode deixar de reparar naqueles ombros morenos, que estavam desnudados pelo vestido. Não conseguia ver bem, mas aparentemente ela usava um vestido ou blusa sem ombros, apenas cingido no busto por aquelas filas de franzidos que estava na moda.
Os seios pareciam ser grandes e os olhos escondidos atrás dos enormes óculos escuros, apenas se podiam adivinhar. Como seriam os olhos dela?
Os cabelos eram curtos e louros, com uma franjinha caída para a testa ampla. O trânsito na fila ao lado avançou e a mulher arrancou devagar. O carro dele não saíu do mesmo local entretanto, mas Manuel não se irritou. Sabia que dentro em pouco se voltariam a cruzar mais á frente noutra fila.
Agora era a sua vez de arrancar. Seguiu em frente devagar, quase automáticamente, e voltou a ligar o rádio. Agora passava uma música antiga de Elton John. Ficou a ouvir e a recordação da esposa voltou com maior força agora. Era sempre assim. Em qualquer circunstancia do dia a dia, inesperadamente, lá voltava o fantasma do passado para o atormentar.
De repente viu-a á sua frente, como naquele dia em que ela lhe tinha pedido o divórcio. Escutou as suas palavras agressivas de novo:
- Vai-te embora de vez! Deixa-me em paz! Nunca me amaste! Vai para as tuas amantes! Para que me hei-de esforçar para te dar esse filho? – Para ficar no mundo mais uma criança sem pai?
Ela não o compreendia, nunca tinha compreendido a sua necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu nome, para lhe fazer companhia e brincar com ele. Como sonhava com esse filho! Imaginava que iriam passear ao parque, que dariam grandes caminhadas, que iriam jogar á bola, imaginava que ensinaria ao filho tudo que tinha guardado dentro de si, fruto de longas horas silenciosas de reflexões, as descobertas sobre o coração humano, as tentativas inglórias de compreender aquela mulher que era sua desde a infância comum passada na aldeia!
Ela sempre tinha sido sua, continuava a ser sua, mas como lhe fazer entender isso? – Agora era tarde, pensou pela milésima vez. O divórcio tinha sido decretado na semana anterior , era um facto irregovável que no entanto não sabia se iria aceitar alguma vez.
A fila estava de novo parada. Meteu a mão no saco a seu lado e pegou na caixa de chocolates. Comeu um quadrado sem pensar! O doce derreteu-se-lhe na boca! Seguiu-se outro e outro mecânicamente! Sempre tinha gostado de comer, por isso estava um bocado acima do peso.
Ela sempre o aborrecia por isso. Agora pelo menos já não a iria ouvir a chateá-lo. Aproximavam-se das portagens e o carro da frente travou bruscamente devido a outro ter mudado de fila inesperadamente. Sem ter tempo de reagir e fragilizado pelas suas recordações de um casamento fracassado, Manuel embateu violentamente no carro que fez peão e ao bater no separador capotou aparatosamente.
O seu carro tinha-se imobilizado com uma violenta travagem e Manuel saiu em socorro do outro condutor. Não tinha reparado que era o carro da mulher loura. Ela estava presa no cinto de segurança e sangrava da cabeça. Antes de mais nada ele telefonou para o serviço de emergência médica e enquanto esperava a chegada da ambulância, deitou-se no alcatrão a seu lado, acariciando-lhe os cabelos que rapidamente estavam a ficar empapados de sangue.
Ela naquele momento representava todas as mulheres, as que tinham passado fugazmente pela sua vida, as primeiras namoradas, as amantes, a esposa! Em especial a esposa!
Murmurou, sentindo o rosto molhado:
- Perdoa-me, perdoa-me! Não morras, não te vás! Deixa-me conhecer-te melhor! Não me abandones!
Ouviu os silvos da ambulância que chegava, e afastou-se para dar a vez aos paramédicos! Entrou no seu carro mas ao ligar a ignição nada se ouviu! A porcaria do carro tinha ficado mais afectado do que ele suspeitava.
Agora era a brigada de trânsito da GNR que o chamava para fazer o Auto de Ocorrência. Respondeu mecânicamente ás perguntas, assinou onde lhe pediram, e recusou a ajuda que lhe ofereciam sem pensar. Ficou junto ao carro imobilizado e pegando no seu telemóvel chamou um pronto-socorro, para o levar para a oficina.
Quando este chegou, deu as indicações necessárias, e recusou ajuda mais uma vez. Lentamente e sem olhar os carros que se desviavam dele para não o atropelarem, dirigiu-se á berma da Auto-Estrada. Passou as pernas pelo separador, e deixou-se cair no talude cheio de ervas que ainda deviam estar verdes, mas já estavam a secar naquele início de Primavera, que se comportava como o fim do Verão. Afastou-se perdendo-se entre os matagais! Para ele não havia estações do ano. Tinha deixado de haver Primavera, ou Verão! Seria sempre Inverno doravante!
Arlete Piedade

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